Orci Machado – PRA MODE ALEMBRÁ O CUMPADRE

PRA MODE ALEMBRÁ O CUMPADRE

I

Te alembra cumpadre amigo;

já, desde os tempo do antonte;

quando a pinguela era  a ponte,

mais era menó o pirigo.

O bugio cumia figo

nas figuera das montanha;

já acunticia as façanha

por cosas de relevância;

nas casa grande da istância

já rolava as cosa istranha!

II

São mal assombrada as casa;

há muito tempo, é uma luita;

por lá, aquele que iscuita

a cigana, não faiz vaza!

Hai vento forte, que arrasa;

que faiz as arve dá um nó;

faiz um cerno virá pó;

pra mode cresçê  erva ruim;

há muito tempo é ansim;

deisde a maió inté a menó!

III

Por lá, quem gosta de povo;

nunca vai isquentá o banco;

ou morre ou fica lonanco;

inloquece ou gora o ovo;

pra que venha um “patrão” novo;

duis feito por incumenda;

de cumpetência, que aprenda

a cabrestiá  bem ligero;

prais indústria, us bulichero;

banco e sinhô das fazenda!

IV

Quem ansim não se comporta;

impesteia , fica mar

ou infrenta  um vendavar

que chega, arrancando a porta;

que quebra tudo ou intorta;

isso não é brincadera.

Que arranca inté uma tronquera;

só de pensá inté me achico;

pau ferro ou cerno de angico

e  pranta um branco de aruera!

V

Ali naquele indereço;

é ansim que as cosa funciona;

só anarfabeto liciona;

também compra e bota  preço!

É ansim, deisde u cumeço;

te alembra do Getulhinho?

Siguiu por otro caminho;

que não é o das gente nobre;

que mata pra ajuntá os cobre;

puis, se matô o coitadinho!

VI

Nu acaso, sô bem discrente;

hai vento por trais da sorte;

te alembra ainda, da morte

daquele Pedro parente;

argum nosito pendente;

que um só desataria;

puis nem  o Paulo faria;

porque o coitado,” a meu vê”;

era só pra anoitecê;

e nunca amanhiciria!

VII

Sem rasto, só puera e pó;

se sarva o nó  dum novelo;

a boiada sem sinuelo;

tratada como uns bocó;

sem força nuis mocotó;

inté perdeu as malícia.

Imbarca im quarqué nutícia;

sem sabê o que dá nas teia;

mais meu jegue troca a oreia;

antes de arguma pirícia!

VIII

Um chimanguito lagarto

melô a maió lichiguana;

numa revuada tucana;

fazendo um gritedo arto.

O prato se incheu, bem farto;

bem richiadito, te digo;

de dá inveja pra mindigo;

tudo come e ninguém paga;

mais nas casa só tem vaga

pra parentaia e pra amigo!

IX

Na vizinhança do lado;

onde a isperança morô;

das raiz que ela prantô;

hai argum toco cravado;

o povo tá apavorado;

os véio, os jove, as criança;

sempre que a corda balança;

parece inté se istontiá;

não sabendo onde vai dá

o desatá das lambança!

X

Na otra, é inguar que um rodeio;

tôro,  vaca sem ternero;

entre os mocho e os gaiero;

uma  caverna* no meio.

Por lá, hai serviço feio;

pra pruduzí us binifício;

pra si, pra argum seu patrício

que escarve pro mesmo lado

e quando um cicro é fechado;

tudo retorna ao eunício.

XI

Lá, só não hai burro jegue;

no mais, hai tudo que é bicho;

isperteza ali, é um capricho;

não farta quem isso negue!

Não hai ratuera que pegue,

porque os bicho são ligero!

No baruio no pandero;

pro  sussego do bailão;

se não hai sorro**, hai  lobão,

cuidando do galinhero!

XII

A otra é casa maiada;

tanto faz de carsa ou saia;

nessa é certo, quem não maia;

esse não arruma nada!

Parece inté amardiçuada;

cosa boa ali não dá.

É triste inté de se oiá,

no parco, as incenação;

num centro de maiação;

pra crescê, tem que maiá!

XIII

Inté a lagoa é assombrada;

não dá pra ali, margüiá;

é um risco se imundíciá;

de tanto que é imundiciada!

Nessa istância  abandonada;

quando o barco se imborcô;

só  vivardo se sarvô;

pro resto, não teve arregro;

pra azar dos índio, dos negro

e do povo trabaiadô!

Orci Machado – SLG 08/02/2017

*Em se tratando de gado bovino; aqui no RS e especialmente na região missioneira; emprega-se o termo caverna para identificar vaca velha.

**Guaraxaim, guaraxim ou graxaim.

 

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